19 de mai de 2008

Vídeo Areia Grande: construção intencional da miséria em Casa Nova


Comecei a escrever um texto para este blog, o que ainda farei, mas no meio do caminho me chegou o relatório da minha aluna Celly, que participou da viagem. Emocionei-me com o texto dela e decidi compartilhar com vocês,
Luiz Ferraro
RELATÓRIO DA EDUCADORA AMBIENTAL CELIANE SANTIAGO
Realidade encontrada: Peço aqui uma licença poética para expressar meu olhar e sentimentos sobre esta ida a campo.
Chegamos a Casa Nova, município a 60 km de juazeiro, norte do meu estado, Bahia. Conheci Valério um jovem mais novo que eu quase nada, alto, magro, trazia um boné na cabeça, as marcas do sol da caatinga e uma leveza ao falar que me encantou. Seu companheiro e primo, Bartolomeu, olhos de índio, tranqüilo, mas que a qualquer momento tudo pode mudar. Fomos visitar a área que fica entre os povoados de melancia, Salinas da Brinca, Jurema e Riacho Grande. Na verdade, estes povoados circundam esta imensa área de fundo de Pasto.
Quando chegamos comecei a perceber a movimentação dos que eles chamam de pistoleiros e eu de bandidos. Esfriou-me a espinha, mas eu confiava nas pessoas que ali comigo estavam, afinal três homens. Fomos conversando no carro e de repente logo após uma pequena subida da estrada de chão batido que levanta uma nuvem empoeirada atrás do carro, vislumbrei o que para mim só existia de ouvir falar e na minha imaginação. Uma paisagem de não sei quantos metros de cima a baixo do sol, só de caatinga. As plantas se confundiam entre si, tal a densidade da mata. Como Valério disse que a chuva esse ano chegou atrasada, estava tudo verdiado, muitas flores e cheiros, muita vida pulsando ao nosso redor, tanto que por inúmeras vezes senti vontade de abandonar os companheiros e me misturar àquela paisagem e me perder dentro da floresta. Porque era o que eu via, uma imensa e exuberante floresta de caatinga e paradoxalmente de solo arenoso.
A cada metro que entrávamos, lindas paisagens se abriam para nós e eu tinha vontade de guardar tudo no meu peito e de ter mais olhos e mais narizes e mais corações para nunca mais esquecer.
Valério foi me contando dos conflitos e das angústias que eles estavam vivendo, eu compreendia, me surpreendia com a sua narração, com a brutalidade e violência que aquele povo estava sofrendo. Mas eu ainda só tinha a impressão desses sentimentos pela energia que Valério me passava na sua fala e pela minha imaginação que construía a cada informação o que era aquela realidade.
Chegamos depois de mais de hora, onde o rastro da destruição tinha passado, uma casa demolida, que me causou o primeiro impacto da realidade dos fatos. Alguns metros mais a frente chegamos a “casa” de seu José. A esposa com olhar de desesperança, nos recebeu meio desconfiada, mais sempre amigável e amável a seu jeito. O cenário era estarrecedor, a casa que tinham construído estava no chão, eu observava seu José contando que acabara de comprar um guarda-roupas que lhe custou cerca de oitocentos reais que também foi abaixo.
Tinham montado ali mesmo, na sombra de um Juazeiro, um improviso do que seria uma cozinha. Uma mesa de madeira quadrada com vários utensílios amontoados, e alguns bancos de madeira. Quando chegamos, ela estava lavando pratos e continuou. Os seus três filhos, dois meninos e uma menina, estavam a brincar e eu naquele momento não sabia o que fazer. Acho que foi o quadro mais triste que já presenciei. Foi uma mistura de revolta, impotência, solidariedade e tristeza. Não consegui sair de perto das crianças, e eles nem imaginam que eu precisava daquela leveza e alegria de criança que tinham. A menina, de seus cinco anos, trocando os dentes, estava com uma janela enorme na boca, o que deixava seu sorriso muito mais iluminado. Tão doce e meiga, uma flor da caatinga, forte, mas com o mel das abelhas dentro de si. Foram o meu consolo, foi onde pude encontrar um pouco de alegria no meio daquela tristeza imensa que sentia.
Seu José, simpático, pequeno e forte, trazia um chapéu de couro na cabeça. Nos contou o ocorrido, que estava ali para lutar, sempre com um sorriso no rosto, muito amável inclusive com os rebentos. Toda sua propriedade havia sido destruída, as cercas, a casa, as caixas de abelha, tudo no chão, destruído com toda crueldade que o ser humano é capaz de ter. Mas ele não arreda o pé, já havia reconstruído uma parte do cercado para separar os cabritinhos recém nascidos, fui vê-los, e neste momento já não conseguia mais segurar tudo aquilo dentro de mim e encontrei Ferraro com os olhos vermelhos e desabei, solucei, mas tive que controlar um pouco o que sentia porque eu queria levar um pouco de coragem e alegria aquela família tão bonita. A esposa de seu José nos ofereceu a única coisa que podia, paçoca de gergelim, foi uma das coisas mais gostosas que já comi, mas tive que fazer um esforço danado para aquilo descer na minha goela, porque eu tinha um nó maior que minha garganta. Que ainda está aqui e não tem me deixado dormir direito.
Quando me despedi, senti que já não poderia ser a mesma. Recebi esta paulada na cabeça e no coração como um remédio amargo para minha vontade de fazer as coisas. Foram tantas as energias e tão diversas que ainda as tenho em mim e não as quero perder. E a partir daquele momento eu me sinto responsável por aquilo tudo e eu tenho a imensa necessidade de tentar na medida do meu possível, ajudar. É isso que quero e que me fará feliz.
Este texto foi escrito na manhã do dia 10/05.
Celiane Santiago

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